Escrito por Analice Bonatto
“A gente aprende o que [a gente] faz. A gente melhora naquilo que a gente faz. Se você quer promover o desenvolvimento cognitivo, precisa dar oportunidades de a criança usar as suas habilidades cognitivas”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. A pesquisadora concedeu entrevista à Gestão Educacional durante um dos encontros regionais de atualização para professores e coordenadores da educação infantil e do ensino fundamental I, promovidos pelo Sistema Etapa, em São Paulo, no mês de setembro. Suzana foi uma das palestrantes do evento e falou sobre a neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à escola (para crianças de zero a dez anos).
As características do amadurecimento emocional e saudável do cérebro e a ligação desse processo com o aprendizado estão entre os temas abordados por Suzana, que é autora do livro O cérebro em transformação (Ed. Objetiva), entre outros, colunista da Folha de S. Paulo e conhecida pela série Neurológica, exibida no Fantástico. A neurocientista também dirige o Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acompanhe a entrevista.
Gestão Educacional: Você fala a respeito da neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à escola e voltada às crianças de zero a dez anos. Por que o recorte nessa faixa etária?
Suzana Herculano-Houzel: De zero a dez
anos é o período da infância. Daí em diante é a adolescência, [fase em
que] começa uma segunda onda de transformações no cérebro.
Anteriormente, acreditava-se que o período importante de motivações no
cérebro e da formação deste na infância seria de zero a três anos. Hoje,
sabemos que esse período é muito mais longo. Durante toda a infância,
há modificações no cérebro, mas ainda assim acreditava-se que aos dez
anos essas modificações estariam terminadas e o cérebro estaria pronto.
Hoje, a neurociência mostra que não é assim. Primeiro porque as
transformações do período da infância, de desenvolvimento do cérebro
mesmo, duram toda a infância, ou seja, até os dez, onze anos de idade.
Mesmo assim, quando se chega a essa idade, o cérebro ainda não está
pronto, vem uma segunda onda de transformações, que são responsáveis
pelo comportamento adolescente. Essa divisão faz sentido em termos de
desenvolvimento e de aplicação para a educação. Além disso, [a
neurociência e o desenvolvimento infantil] são dois assuntos
complementares que eu abordo em palestras diferentes nas escolas.
Gestão Educacional: Em que as descobertas sobre o desenvolvimento do cérebro podem contribuir para a educação?
Suzana: Toda vez que você entende melhor
o assunto de que trata e com o qual lida na prática, o seu resultado é
muito melhor, não só em relação ao desempenho efetivo e bem-estar de
professores e alunos, mas também em relação ao aprendizado das várias
interações na escola. É claro que você pode ser professor sem saber um
pingo de neurociência e descobrir na prática temas e recomendações que a
gente pode chegar a dar com a neurociência. Mas juntar forças é
extraordinário. Quando se descobre que outras pessoas tratam do mesmo
assunto que você, mas de maneiras complementares, ganha-se muito mais
informação sobre o que se está fazendo. [O professor] consegue entender
melhor “porque funciona melhor quando faço assim na escola com meus
alunos”. E isso gera não só resultados melhores e satisfação para todo
mundo, mas também aprendizado melhor, que é o que a gente quer na
escola.
Gestão Educacional: De que forma os professores podem se aprofundar nessa questão?
Suzana: Há alguns cursos de atualização que oferecem
esse tipo de conteúdo. A literatura em inglês já está muito mais
avançada. Aqui no Brasil ainda há pouca coisa a respeito. Eu estou
preparando um livro especificamente sobre a neurociência voltada à
aplicação na escola. A neurociência do aprendizado e do desenvolvimento
infantil e de adolescentes.
Gestão Educacional: A literatura nessa área, no Brasil, ainda é escassa. E os estudos?
Suzana: Há pouca literatura disponível
no Brasil. Os estudos também são poucos. A neurociência tem avançado
enormemente nessas áreas relevantes do aprendizado, da atenção, da
importância da motivação, do próprio desenvolvimento cognitivo e
emocional, mas esse tipo de pesquisa, em geral, não é feito no ambiente
escolar ou especificamente voltado aos alunos, aos professores ou a essa
interação. É o que a gente chama de pesquisa bem básica mesmo, mas o
assunto é tão fácil de relacionar com o que acontece no ambiente escolar
que, mesmo dessas pesquisas que não são feitas exatamente com
professores e alunos, os resultados são diretamente aplicáveis.
Gestão Educacional: Quais são os países que têm pesquisas mais desenvolvidas nessa área, especificamente na escola?
Suzana: Onde eu vejo mais [pesquisa nessa área] é
nos Estados Unidos e no Reino Unido. O Reino Unido tem uma preocupação
grande em fazer essa aplicação da neurociência ao sistema escolar.
Gestão Educacional: Quais as mudanças mais expressivas no
cérebro da criança até os dez anos de idade? E o que elas representam
para o processo de aprendizado?
Suzana: A criança até os dez anos está
aprendendo essencialmente tudo. Ela está aprendendo não só a lidar com o
mundo, mas, antes disso, a lidar com ela mesma. O cérebro dela está em
formação biológica anatômica, mas é importante reconhecer que essa
formação biológica se dá de acordo com o contexto ambiental que você tem
ao redor. É por isso que a família, a escola, a interação pessoal com
os professores e com os colegas na escola são fundamentais, porque guiam
essa formação do cérebro na infância. A biologia é fundamental, mas não
é só ela que determina quem você se torna no final da infância. É a
combinação das duas coisas.
Gestão Educacional: Como promover, de forma adequada, o desenvolvimento cognitivo da criança?
Suzana: A gente aprende o que [a gente] faz. A gente
melhora naquilo que a gente faz. Então se você quer promover o
desenvolvimento cognitivo, você precisa dar oportunidades de a criança
usar as suas habilidades cognitivas. E aqui também não há fórmula
mágica, você precisa de riquezas de atividades, de oportunidades para
fazer coisas diferentes, de demandas diferentes, de desafios diferentes.
Essa riqueza de estímulos é importante, mas é riqueza no sentido de
variedade e, sobretudo, riqueza de oportunidades de interagir com
estímulos que façam sentido para você. Não quer dizer, de maneira
alguma, por exemplo, que hoje a criança vai ficar na sala ouvindo ao
fundo mandarim e amanhã ela vai ficar ouvindo alemão e cantigas de roda
em russo, que não fazem o menor sentido para ela. Isso é estimulação? É
estimulação ruim, é ruído que não acrescenta nada para a criança. A
criança não tem como manipular aquilo, não tem como usar aquela
informação de maneira coerente, de maneira de fato produtiva. Dar
estímulos não quer dizer simplesmente soltar a criança em um mar de
ruídos de todas as formas. Quer dizer oferecer condições de interação
real com coisas diferentes, possibilidades de resolver problemas dos
tipos mais diferentes possíveis. Bem mais interessante é oferecer
situações para a criança se pôr à prova de uma maneira que seja
agradável e que atraia a sua atenção.
Gestão Educacional: Como o cérebro trabalha durante o
aprendizado da leitura e da escrita? Qual a importância das experiências
para o desenvolvimento cognitivo e, em particular, o da linguagem?
Suzana: A linguagem é um exemplo em
particular dessa interação necessária entre a biologia e o ambiente.
Nosso cérebro nasce capaz de aprender qualquer língua que ele possa
produzir. Você não precisa saber onde vai nascer; sua mãe pode mudar de
país dois dias antes de você nascer e está tudo bem, você é capaz de
aprender a língua daquele país novo. Mas a compreensão, a produção da
linguagem e a capacidade de você expressar essa linguagem em
rabisquinhos, que é essencialmente o que a escrita é, dependem do seu
cérebro ter as bases biológicas prontas para isso, o que não acontece
imediatamente. Existe um tempo normal de desenvolvimento, que geralmente
é diferente para cada criança. Quando o cérebro atinge a maturidade
necessária suficiente para começar a compreender a linguagem, produzir
movimentos específicos das palavras que têm um determinado significado e
associar o significado daqueles sons aos rabisquinhos das letras da
língua escrita é que a influência do ambiente é fundamental. É aí que
essa oportunidade de resolver problemas, de usar essas capacidades
biológicas recém-formadas para lidar com o mundo, para usar a linguagem
para lidar com o mundo, é fundamental para que o aprendizado de fato
aconteça. Mas lembrar que esse aprendizado depende de uma fundação
biológica que talvez não esteja lá no mesmo tempo para todas as crianças
é a primeira base fundamental para você saber o que esperar de crianças
diferentes. Ao mesmo tempo, é preciso saber que a gente fica apenas tão
bom quanto a gente pratica; não dá para esperar que a criança exposta a
uma linguagem pobre em casa, que não recebe uma demanda na escola ou
oportunidades de melhorar o seu vocabulário, [tenha completo] o seu
domínio de sintaxe. Se você não tem oportunidade de colocar as suas
capacidades biológicas cognitivas à prova pelo seu ambiente, é claro que
você não vai desenvolver essas capacidades. Aí é que a gente reconhece a
importância da escola oferecer esse ambiente de desafios saudáveis.
Gestão Educacional: A neurociência descobriu que o cérebro
tem um sistema especializado em detectar carícias. O carinho é
importante para o desenvolvimento da criança?
Suzana: É fundamental, porque o carinho é esse toque
com certa pressão, com certo movimento em partes grandes do corpo, de
uma vez só, que é o sinal inequívoco para o cérebro de que a criança não
está sozinha no mundo. A falta do carinho é sinal, para o cérebro, de
que você está abandonado, não tem quem cuide de você, não tem quem dê
atenção, não tem quem te guie e te oriente pelo mundo. Na ausência de
carinho, a resposta do cérebro, mesmo que veja outras pessoas ao redor, é
tocar todos os alarmes, desligar tudo o que não é essencial e
simplesmente sobreviver. Ele entra em um modo de resposta ao estresse
que, quando se torna crônico, tem uma série de consequências para a
saúde. Quando isso acontece na criança, o cérebro se molda de acordo com
aquela realidade. O cérebro da criança que cresce em um ambiente que
não tem carinho entende “estou abandonada, tenho de me virar sozinha”.
Essa criança se torna um adulto cujo cérebro aprendeu a sempre esperar o
pior de todas as situações.
Gestão Educacional: Como se define a sobrevivência nesse caso?
Suzana: É o se virar sozinho em todos os aspectos,
desde gastar pouca energia até crescer o menos possível; você vê
crianças que têm estatura menor, inclusive com repercussões para a saúde
cardiovascular e para a saúde mental. A própria criança vive em um
estado de angústia, de ansiedade, sempre espera o pior das situações.
Assim, ela acaba se tornando um adulto que também espera o pior das
situações. Ela está sempre preparada a tratar qualquer problema como uma
catástrofe eminente, que é uma resposta completamente diferente da
criança que recebeu carinho, apoio, que aprendeu a lidar com os
problemas do mundo como apenas pequenas situações a resolver, que tem
uma atitude muito mais saudável justamente graças a esse apoio social
que ela recebia e do qual o carinho é a evidência maior.
Gestão Educacional: Como as brincadeiras infantis devem ser encaradas no processo de aprendizagem da criança?
Suzana: A brincadeira é o palco para a
experimentação. É a oportunidade pura de se testar, na prática, as
habilidades cognitivas, como se interage com as outras pessoas
emocionalmente, que resultados as suas ações têm sobre os outros, como
você interage com os outros. Brincadeira é oportunidade desde a mais
simples experimentação sensório-motora até você ter as brincadeiras de
enganar o outro, dentro de um jogo que é experimentação social e
emocional. Brincadeiras como o jogo Detetive, em que é preciso
solucionar um assassinato e você tem de intuir quem está com medo,
enganando, tudo isso são oportunidades fabulosas de aprendizado. Você
tem de aprender a identificar e a seguir regras, o que não é nada
demais, é apenas a maneira de funcionarmos em sociedade. A brincadeira
dá a oportunidade de aprender a conviver com essas regras, testar as
suas capacidades e seus limites e testar essas regras de convívio
social. São fundamentais o jogo e a brincadeira, não só para as
crianças, mas para todo mundo.
Gestão Educacional: Em situações de conflito na escola, o
professor, em vez de apenas dizer “não”, também deve ser positivo e
sugerir às crianças outras opções para despertar seu interesse?
Suzana: Dizer “não” não resolve nada. A única função
que o não cumpre é a de sinalizar o erro, mas só sinalizá-lo não
resolve se você não fornecer uma alternativa de lidar com aquela
situação, de resolver o problema em todos os sentidos: desde a maneira
correta de se escrever uma letra até resolver conflitos com os colegas. A
primeira coisa que o professor e a escola têm de reconhecer é que a
função deles é dar alternativa. Não é simplesmente punir, dizer “não é
assim que se faz”. É preciso mostrar como se faz. A criança não tem a
menor obrigação de saber qual é a maneira correta de fazer algo. É o
adulto, o professor e a escola que têm de fazer isso. Dar alternativa é
fundamental, abrir esse leque de possibilidades melhores e mais
saudáveis para os alunos, mas também e, sobretudo, dar o exemplo. É
mostrar por meio de suas próprias ações como se faz. Isso tanto para a
parte cognitiva, digamos racional, dos problemas do comportamento quanto
para a parte emocional. É mostrar também como lidar com problemas dos
mais variados. As crianças fazem o que elas veem os outros fazerem.
Revista Gestão Educacional
Entrevista publicada na edição de dezembro de 2013.
http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/reportagens/entrevistas/495-a-neurociencia-do-desenvolvimento-infantil-aplicada-a-educacao