terça-feira, maio 20, 2014

Expedicionários da Saúde: conheça as viagens e histórias



Fotógrafo André François lança livro que reúne material produzido durante viagens ao lado da organização. Confira a entrevista


por Analice Bonatto | Revista FH










FH: Qual o propósito do livro Expedicionários da Saúde? E tal propósito foi alcançado?
 

André François: Sou fotógrafo há mais de 20 anos e, na metade dessa história, decidi fazer fotografias em que eu pudesse contar histórias que sensibilizassem as pessoas para um tema, uma causa. Nos últimos seis anos, tenho feito um trabalho muito focado em questões da saúde como um todo, porque é um tema muito carente de histórias. E eu acho que a minha foto pode ser mais uma ferramenta colaborativa de mudança, transformação e reflexão sobre essa questão. No caso dos Expedicionários da Saúde, na minha primeira viagem com eles, há uns quatro anos, percebi o trabalho maravilhoso e diferente dessa organização e achei que valia a pena dedicar algumas viagens para contar essa história. É um trabalho que tem de continuar e deve ser multiplicado.

FH: Desde 2006, você está envolvido com questões relacionadas à saúde. De lá para cá, quais foram as maiores dificuldades para efetuar os registros, e qual o maior aprendizado?
 

François: Quando entro em um hospital, tento participar de um momento delicado na vida de uma pessoa. Dessa forma, se não conseguir criar um vínculo com ela, e não conseguir deixar muito claro que contar à sua história ajudará outras pessoas, a foto não é possível. A pessoa precisa permitir que eu participe da vida dela por um tempo para que a história seja contada, mesmo nesse momento delicado. Se o vínculo for bom, a história é boa e a imagem sai.

FH: Apesar das carências, é possível levar atendimento médico para regiões isoladas e fazer a diferença na vida de brasileiros?
 

François: Com certeza.  Eu sou atraído pelo trabalho dos Expedicionários por causa disso. Eles levam para a população indígena – que tem outro tipo de vida, com outras necessidades – assistência médica, mas com muita sabedoria para lidar com ela. Eles  montam um centro cirúrgico no meio de um lugar inóspito, como a Amazônia, e realizam cirurgias sob condições extremas. Lá é muito difícil montar qualquer estrutura porque há muita umidade, então os equipamentos elétricos e eletrônicos não funcionam direito. Dessa forma, eles desenvolveram tecnologia e metodologia para fazer um centro cirúrgico em poucos dias, realizar as cirurgias, desmontar tudo e ir embora. E essas cirurgias salvam vidas. Algumas são simples, mas extremamente importantes. Por exemplo, doenças nos olhos, como pterígio [doença ocular que acontece em países tropicais e é frequente na região amazônica], com o tempo pode cegar. Aqui, não temos isso, porque muito antes [ da doença se agravar] fazemos a cirurgia que é simples, mas lá muitos índios ficam cegos e deixam de caçar e pescar. Quando há a chance de devolver a visão a um índio, ou operar uma hérnia e fazê-lo poder voltar a carregar peso, isso é devolver a vida a ele.

Livro: Expedicionários da Saúde
Autor: André François
Número de páginas: 168
Editora: ImageMagica
https://www.facebook.com/imagemagicapage


http://saudeweb.com.br/40855/expedicionarios-da-saude-conheca-as-viagens-e-historias-retratadas/


Aids: “Brasil precisa dobrar o número de pessoas tratadas”


por Analice Bonatto | Especial para a revista FH

Professor da FMUSP Mário Scheffer afirma que, apesar dos avanços, há muitas falhas que precisam ser corrigidas. Ainda morrem 30 pessoas de aids por dia no Brasil e boa parte dos pacientes chegam tarde aos serviços de saúde

O professor do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Mário Scheffer lançou o livro “Coquetel: a incrível história dos antirretrovirais e do tratamento da Aids no Brasil”. Nele, o autor conta a trajetória do combate à doença no País e mostra a necessidade de dobrar o número de atendimentos.

A primeira parte do livro conta a evolução dos antirretrovirais – de 1986, ano de surgimento do AZT -, aos dias de hoje. Como era o tratamento neste período e a partir de quando ele evolui?

Mário Scheffer: Se comparada a outras doenças, o tratamento da aids passou por uma verdadeira revolução em 25 anos, desde a descoberta do AZT. No começo dos anos 1990, surgiram outros medicamentos que eram combinados com AZT. Mas os  benefícios eram modestos, passageiros e a aids ainda era uma sentença de morte. A grande mudança veio em 1995, quando surgiram remédios mais potentes, os inibidores da protease, com capacidade de inibir a replicação viral, recuperar o sistema imunológico das pessoas infectadas, reduzir a ocorrência de infecções intercorrentes e outras morbidades. Depois surgiram várias classes que agem em momentos diferentes do ciclo de vida do HIV, mais eficazes, com menos efeitos adversos e mais fáceis de consumir, além de alternativas para pessoas resistentes a medicamentos antigos. Hoje existem 30 antirretrovirais, que podem ser combinados, daí o nome coquetel.

O Brasil acompanhou essa evolução? E quais fatores permitiram o acesso de tantas pessoas aos medicamentos?  E o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) nesse processo?
 
Mário Scheffer: O Brasil tem um programa que distribui 21 antirretrovirais e mantém 250 mil pessoas em tratamento, no sistema público. Graças também à produção local de parte desses medicamentos, em forma de genéricos.  No Brasil, houve uma  rara combinação de marcos legais – nossa Constituição, uma lei específica que obrigava o governo a fornecer o tratamento da aids -, e a decisão política desde o início da epidemia, o que nos levou a investir recursos, criar programas e corpo técnico. Sem dúvida, a mobilização das pessoas atingidas que se juntaram em ONGs e lutaram pelo seu próprio destino foi decisiva. E deve ficar claro que sem o SUS não teríamos essa resposta que salvou a vida de milhares de pessoas.

Hoje 250 mil brasileiros recebem antirretrovirais do SUS. De acordo com o seu estudo, o País precisa e tem condições de dobrar o número de atendidos. O que é preciso mudar para que isso ocorra?
 
Mário Scheffer: Nos últimos anos, pesquisas científicas demonstraram a importância dos ARV na prevenção e na redução da transmissão do HIV. Quanto mais pessoas em tratamento (desde que haja adesão, que tomem corretamente a medicação) haverá menor circulação do vírus.  Além do benefício terapêutico individual, passa a ter também um benefício preventivo global. Por isso é tão importante que as pessoas façam o teste de HIV, iniciem o tratamento na hora certa, o quanto antes, isso traz ganho individual para saúde, mas ganho coletivo também. O que se discute ainda é uso de medicamentos antes e depois da exposição ao vírus da aids. Por tudo isso, o Brasil precisa dobrar o número de pessoas tratadas. Além disso, há muitas falhas que precisam ser corrigidas. Com todos os avanços, ainda morrem 30 pessoas de aids por dia no Brasil e boa parte dos pacientes chegam tarde aos serviços de saúde, já doentes, pois não fizeram o teste de HIV e não se beneficiarão dos medicamentos disponíveis.

Livro: Coquetel: a incrível história dos antirretrovirais e do tratamento da aids no Brasil
Editora: Hucitec/Sobravime
Autor: Mário Scheffer
Número de páginas: 226

 http://saudeweb.com.br/36314/aids-brasil-precisa-dobrar-o-numero-de-pessoas-tratadas/

Dando asas à imaginação


http://www.profissaomestre.com.br/index.php/especiais/arte-educacao/297-dando-asas-a-imaginacao

Escrito por Analice Bonatto
Das bancas de jornal às livrarias. Na contramão das teorias da década de 60, que apontavam a história em quadrinhos (HQ) como um subgênero da Literatura ou como subliteratura, atualmente ela ocupa lugar de destaque no campo das artes. “Trata-se de uma arte complexa e deve ser entendida como uma arte híbrida, campo fértil das relações entre as diversas linguagens, em especial, entre a imagem e o texto. E ela só existe nessa interação entre o visual, o verbal e o sonoro”, avalia a professora doutora Sonia Melchiori Galvão, que é coordenadora do curso de Letras e da Pós-graduação em Literatura: Teoria e Crítica, da Faculdade São Bernardo (Fasb), de São Bernardo do Campo (SP).
Professores que já usam a HQ em sala de aula argumentam que elas são um campo rico para se trabalhar com trocadilhos, ambiguidades, ironia e humor, facilitando a aprendizagem. “Vejo muitos benefícios em incorporar esse formato como parte da metodologia para o ensino da literatura, das artes e da linguagem”, diz o mestre em Educação e professor de Literatura e redação, André Luis Rosa e Silva. “Hoje, é possível encontrar várias edições de clássicos da literatura nessa versão e a sua correlação com o cinema e as artes plásticas pode fornecer base para um trabalho transdisciplinar, em especial na produção de textos, em que a criatividade e o trabalho em equipe se desenvolvam de forma lúdica e com grande impacto no cotidiano dos alunos”, ressalta.
Esse impacto pode ser observado pela aproximação rápida do estudante com a obra, produzindo certa intimidade pela informalidade da linguagem que facilita o desenvolvimento das habilidades e competências que se pretende. “Também a riqueza dos traços estéticos visuais proporciona ao aluno uma viagem do imaginário amparada pelas imagens e amplia a possibilidade de leitura de mundo”, diz Sonia.




Nas escolas

O trabalho com HQs já pode ser proposto nos primeiros anos escolares. No Colégio Humboldt, em São Paulo, os alunos têm aula de leitura, uma vez por semana, desde o 2º ano do ensino fundamental e muitos se tornam leitores a partir do contato com os quadrinhos. A professora Carolina Yokota trabalha a produção de HQs com os alunos do 6º ano e conta que eles adoram criar as histórias e desenhar. “É uma linguagem que os alunos conhecem muito bem”, diz Carolina, que é professora de Língua Portuguesa e já trabalhou como roteirista de histórias em quadrinhos.
Antes da produção, a professora ressalta a importância de se levantar as características e particularidades do gênero. Em duplas, os alunos discutem como será o personagem, a história e, num segundo momento, desenvolvem a história. Finalizado esse processo, o material é colocado no mural que é exposto na escola.
Com o tema central “herói”, Anaí dos Anjos Marinho Teles, professora de Artes da Escola Internacional de Alphaville, em São Paulo, também desenvolve um projeto, em conjunto com a disciplina de Espanhol, para a garotada do 7º ano criar sua HQ.  Ela conta que, por meio de uma linguagem acessível como a das HQs, os alunos produzem histórias e elaboram conceitos com base no repertório individual. Antes da produção, ela contextualiza e traz referências sobre o gênero para a sala. “No caso da disciplina de Artes, quero mostrar que nessa linguagem há diferentes formas de produção”, explica ela.
Depois disso, os alunos começam a compor o personagem. “Eles pensarão na complexidade desse personagem para conquistar a atenção do público”, explica a professora. Quando o roteiro está pronto, é feito um esboço da história que possibilita pensar melhor nos elementos visuais para contá-la: “nessas aulas, discutimos, por exemplo, uma cena de ação que pode se fragmentar por vários quadros”. E para o esboço final, escolhem o material a ser usado, como aquarela sobre nanquim. Coletivamente, depois das histórias prontas, montam o boneco da revista que irá para a impressão.






Divulgação científica

Hoje, há materiais que enfocam a Ciência, a Física, o Cálculo, a Eletricidade utilizando personagens mangás para conversar com o leitor. Esse é o caso dos Guias Mangás – Guia Mangá de Eletricidade, Guia Mangá de Estatística entre outros temas, da editora Novatec. Com muitos exemplos do mundo real e personagens sagazes e divertidos, é um poderoso meio para divulgar ciências.
Para a professora doutora Karina Omuro Lupetti, uma das coordenadoras do Núcleo Ouroboros de Divulgação Científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a divulgação da ciência pode ser desfavorecida se o formalismo dos termos científicos for excessivamente utilizado e não for considerada a característica do seu público-alvo. O Núcleo Ouroboros desenvolve há sete anos projetos que utilizam as artes, como teatro, ilustração, música para divulgar ciência ao público em geral. Em 2010, o projeto Sigma Pi foi iniciado com o propósito de incentivar a produção da coletânea de mangás pela desenhista e estudante de Química, Adriana Yumi Iwata (http://www.sigmapi-project.com). “A revista envolve conteúdos de Química aliados à temática dos romances feitos para meninas (shoujo), dos mangás japoneses”, explica Karina.







Como usar a HQ em sala de aula

Para ampliar o potencial de uso da HQ em projetos na escola, deve-se considerar todas as possibilidades da relação entre as linguagens. Dessa forma, a HQ pode ser explorada na seguinte sequência (em etapas):

ETAPA I
- Apresentação e análise do contexto de criação da HQ escolhida;
- Apresentação e análise de seu suporte de veiculação (jornal, revista empresarial, meios tecnológicos – blog, redes sociais, programas de TV, etc.).

ETAPA II - Análise dos elementos verbais
- Análise dos aspectos narrativos do texto: sequência narrativa; construção de personagem; análise do tempo e do espaço e de que forma ambos dialogam com a estruturação do enredo e da personagem; análise dos aspectos linguísticos.

ETAPA III – Análise dos elementos não verbais
- Exploração da imagem: traços, cores, movimentos, tipos de balões, técnicas empregadas, elementos tipográficos (tamanho, cor, formato, disposição na página), etc.;
- Exploração dos elementos sonoros (geralmente provenientes de onomatopeias).

ETAPA IV – Análise da produção de sentido e discussão de temas
- Efeito de humor ou de ironia;
- Discussão temática;
- Análise crítica, com base na interação do verbal com o não verbal, observando-se as competências e habilidades a serem desenvolvidas;

ETAPA V – Desenvolvimento de projetos (exige a pesquisa integrada). Algumas sugestões:
- Projeto de criação de HQs pelos alunos (existem programas específicos na web);
- Criação de storyboard de obra da Literatura e transformação em cinema de animação (stop motion);
- Desenvolvimento de HQ para criação de net-novela com veiculação na web;
- Transposição de obras da Literatura para os quadrinhos.

Fonte: Professora doutora Sonia Melchiori Galvão







fotos: Leandro Andrade

Sugestões de HQs para usar com seus alunos:
  • Quadrinhos de Will Eisner
  • HQs nacionais: Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Níquel Náusea, Pasquim
  • Clássicos estrangeiros: Calvin, Mafalda, Asterix, Tin Tin e Peanuts
  • Desvendando os quadrinhos, de Scott McCloud (M.Books)
  • Maus, de Art Spiegelman
  • A Nova Califórnia, de Lima Barreto (Francisco S. Vilachã / Escala Educacional / editora Escala)
  • Frankenstein, de Mary Shelley (tradução de Helô Beraldo / Larousse Jovem / Editora Escala)
  • Os Sertões - A luta, de Euclides da Cunha (Carlos Ferreira (roteiro) / Rodrigo Rosa (desenhos) / Editora Ática)
Revista Profissão Mestre
Matéria publicada na edição de maio de 2013.
http://www.profissaomestre.com.br/index.php/especiais/arte-educacao/297-dando-asas-a-imaginacao

A neurociência do desenvolvimento infantil aplicada à educação


 Escrito por Analice Bonatto
“A gente aprende o que [a gente] faz. A gente melhora naquilo que a gente faz. Se você quer promover o desenvolvimento cognitivo, precisa dar oportunidades de a criança usar as suas habilidades cognitivas”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. A pesquisadora concedeu entrevista à Gestão Educacional durante um dos encontros regionais de atualização para professores e coordena­dores da educação infantil e do ensino fundamental I, promovidos pelo Sistema Etapa, em São Paulo, no mês de setembro. Suzana foi uma das palestrantes do evento e falou sobre a neurociência do desenvol­vimento infantil aplicada à escola (para crianças de zero a dez anos). As características do amadurecimento emocional e saudável do cé­rebro e a ligação desse processo com o aprendizado estão entre os temas abordados por Suzana, que é autora do livro O cérebro em transformação (Ed. Objetiva), entre outros, colunista da Folha de S. Paulo e conhecida pela série Neurológica, exibida no Fantástico. A neurocientista também dirige o Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acompanhe a entrevista.  

Gestão Educacional: Você fala a respeito da neurociência do de­senvolvimento infantil aplicada à escola e voltada às crianças de zero a dez anos. Por que o recorte nessa faixa etária?

Suzana Herculano-Houzel: De zero a dez anos é o período da infância. Daí em diante é a adolescência, [fase em que] começa uma segunda onda de transformações no cérebro. Anteriormente, acreditava-se que o período importante de motivações no cérebro e da formação deste na infância seria de zero a três anos. Hoje, sabemos que esse período é muito mais longo. Durante toda a infância, há modificações no cérebro, mas ainda assim acreditava-se que aos dez anos essas modificações estariam terminadas e o cérebro estaria pronto. Hoje, a neurociência mostra que não é assim. Primeiro porque as transformações do período da infância, de desenvolvimento do cérebro mesmo, duram toda a infância, ou seja, até os dez, onze anos de idade. Mesmo assim, quando se chega a essa idade, o cérebro ainda não está pronto, vem uma segunda onda de transformações, que são res­ponsáveis pelo comportamento adolescente. Essa divisão faz sentido em termos de desenvolvimento e de aplicação para a educação. Além disso, [a neurociência e o desenvolvimento infantil] são dois assuntos complementares que eu abordo em palestras diferentes nas escolas.

Gestão Educacional: Em que as descobertas sobre o desenvolvimento do cérebro podem contribuir para a educação?

Suzana: Toda vez que você entende melhor o assunto de que trata e com o qual lida na prática, o seu resultado é muito melhor, não só em relação ao desempenho efetivo e bem-estar de professores e alunos, mas também em relação ao aprendizado das várias interações na escola. É claro que você pode ser professor sem saber um pingo de neurociência e descobrir na prática temas e recomendações que a gente pode chegar a dar com a neurociência. Mas juntar forças é extraordinário. Quando se descobre que outras pessoas tratam do mesmo assunto que você, mas de maneiras complementares, ganha-se muito mais informação sobre o que se está fazendo. [O professor] consegue entender melhor “porque funciona melhor quando faço assim na escola com meus alunos”. E isso gera não só resultados melhores e satisfação para todo mundo, mas também aprendizado melhor, que é o que a gente quer na escola.

Gestão Educacional: De que forma os professores podem se aprofundar nessa questão?

Suzana: Há alguns cursos de atualização que oferecem esse tipo de conteúdo. A literatura em inglês já está muito mais avançada. Aqui no Brasil ainda há pouca coisa a respeito. Eu estou preparando um livro especificamente sobre a neurociência voltada à aplicação na escola. A neurociência do aprendizado e do desenvolvimento infantil e de adolescentes.

Gestão Educacional: A literatura nessa área, no Brasil, ainda é escassa. E os estudos?

Suzana: Há pouca literatura disponível no Brasil. Os estudos também são poucos. A neurociência tem avançado enormemente nessas áreas relevantes do aprendizado, da atenção, da importância da motivação, do próprio desenvolvimento cognitivo e emocional, mas esse tipo de pesquisa, em geral, não é feito no ambiente escolar ou especificamente voltado aos alunos, aos professores ou a essa interação. É o que a gente chama de pesquisa bem básica mesmo, mas o assunto é tão fácil de relacionar com o que acontece no ambiente escolar que, mesmo dessas pesquisas que não são feitas exatamente com professores e alunos, os resultados são diretamente aplicáveis.

Gestão Educacional: Quais são os países que têm pesquisas mais desenvolvidas nessa área, especificamente na escola?

Suzana: Onde eu vejo mais [pesquisa nessa área] é nos Estados Unidos e no Reino Unido. O Reino Unido tem uma preocupação grande em fazer essa aplicação da neurociência ao sistema escolar.

Gestão Educacional: Quais as mudanças mais expressivas no cérebro da criança até os dez anos de idade? E o que elas representam para o processo de aprendizado?

Suzana: A criança até os dez anos está aprendendo essencialmente tudo. Ela está aprendendo não só a lidar com o mundo, mas, antes disso, a lidar com ela mesma. O cérebro dela está em formação biológica anatômica, mas é importante reconhecer que essa formação biológica se dá de acordo com o contexto ambiental que você tem ao redor. É por isso que a família, a escola, a interação pessoal com os professores e com os colegas na escola são fundamentais, porque guiam essa formação do cérebro na infância. A biologia é fundamental, mas não é só ela que determina quem você se torna no final da infância. É a combinação das duas coisas.

Gestão Educacional: Como promover, de forma adequada, o desenvolvimento cognitivo da criança?

Suzana: A gente aprende o que [a gente] faz. A gente melhora naquilo que a gente faz. Então se você quer promover o desenvolvimento cognitivo, você precisa dar oportunidades de a criança usar as suas habilidades cognitivas. E aqui também não há fórmula mágica, você precisa de riquezas de atividades, de oportunidades para fazer coisas diferentes, de demandas diferentes, de desafios diferentes. Essa riqueza de estímulos é importante, mas é riqueza no sentido de variedade e, sobretudo, riqueza de oportunidades de interagir com estímulos que façam sentido para você. Não quer dizer, de maneira alguma, por exemplo, que hoje a criança vai ficar na sala ouvindo ao fundo mandarim e amanhã ela vai ficar ouvindo alemão e cantigas de roda em russo, que não fazem o menor sentido para ela. Isso é estimulação? É estimulação ruim, é ruído que não acrescenta nada para a criança. A criança não tem como manipular aquilo, não tem como usar aquela informação de maneira coerente, de maneira de fato produtiva. Dar estímulos não quer dizer simplesmente soltar a criança em um mar de ruídos de todas as formas. Quer dizer oferecer condições de interação real com coisas diferentes, possibilidades de resolver problemas dos tipos mais diferentes possíveis. Bem mais interessante é oferecer situações para a criança se pôr à prova de uma maneira que seja agradável e que atraia a sua atenção.

Gestão Educacional: Como o cérebro trabalha durante o aprendizado da leitura e da escrita? Qual a importância das experiências para o desenvolvimento cognitivo e, em particular, o da linguagem?

Suzana: A linguagem é um exemplo em particular dessa interação necessária entre a biologia e o ambiente. Nosso cérebro nasce capaz de aprender qualquer língua que ele possa produzir. Você não precisa saber onde vai nascer; sua mãe pode mudar de país dois dias antes de você nascer e está tudo bem, você é capaz de aprender a língua daquele país novo. Mas a compreensão, a produção da linguagem e a capacidade de você expressar essa linguagem em rabisquinhos, que é essencialmente o que a escrita é, dependem do seu cérebro ter as bases biológicas prontas para isso, o que não acontece imediatamente. Existe um tempo normal de desenvolvimento, que geralmente é diferente para cada criança. Quando o cérebro atinge a maturidade necessária suficiente para começar a compreender a linguagem, produzir movimentos específicos das palavras que têm um determinado significado e associar o significado daqueles sons aos rabisquinhos das letras da língua escrita é que a influência do ambiente é fundamental. É aí que essa oportunidade de resolver problemas, de usar essas capacidades biológicas recém-formadas para lidar com o mundo, para usar a linguagem para lidar com o mundo, é fundamental para que o aprendizado de fato aconteça. Mas lembrar que esse aprendizado depende de uma fundação biológica que talvez não esteja lá no mesmo tempo para todas as crianças é a primeira base fundamental para você saber o que esperar de crianças diferentes. Ao mesmo tempo, é preciso saber que a gente fica apenas tão bom quanto a gente pratica; não dá para esperar que a criança exposta a uma linguagem pobre em casa, que não recebe uma demanda na escola ou oportunidades de melhorar o seu vocabulário, [tenha completo] o seu domínio de sintaxe. Se você não tem oportunidade de colocar as suas capacidades biológicas cognitivas à prova pelo seu ambiente, é claro que você não vai desenvolver essas capacidades. Aí é que a gente reconhece a importância da escola oferecer esse ambiente de desafios saudáveis.

Gestão Educacional: A neurociência descobriu que o cérebro tem um sistema especializado em detectar carícias. O carinho é importante para o desenvolvimento da criança?

Suzana: É fundamental, porque o carinho é esse toque com certa pressão, com certo movimento em partes grandes do corpo, de uma vez só, que é o sinal inequívoco para o cérebro de que a criança não está sozinha no mundo. A falta do carinho é sinal, para o cérebro, de que você está abandonado, não tem quem cuide de você, não tem quem dê atenção, não tem quem te guie e te oriente pelo mundo. Na ausência de carinho, a resposta do cérebro, mesmo que veja outras pessoas ao redor, é tocar todos os alarmes, desligar tudo o que não é essencial e simplesmente sobreviver. Ele entra em um modo de resposta ao estresse que, quando se torna crônico, tem uma série de consequências para a saúde. Quando isso acontece na criança, o cérebro se molda de acordo com aquela realidade. O cérebro da criança que cresce em um ambiente que não tem carinho entende “estou abandonada, tenho de me virar sozinha”. Essa criança se torna um adulto cujo cérebro aprendeu a sempre esperar o pior de todas as situações.

Gestão Educacional: Como se define a sobrevivência nesse caso?

Suzana: É o se virar sozinho em todos os aspectos, desde gastar pouca energia até crescer o menos possível; você vê crianças que têm estatura menor, inclusive com repercussões para a saúde cardiovascular e para a saúde mental. A própria criança vive em um estado de angústia, de ansiedade, sempre espera o pior das situações. Assim, ela acaba se tornando um adulto que também espera o pior das situações. Ela está sempre preparada a tratar qualquer problema como uma catástrofe eminente, que é uma resposta completamente diferente da criança que recebeu carinho, apoio, que aprendeu a lidar com os problemas do mundo como apenas pequenas situações a resolver, que tem uma atitude muito mais saudável justamente graças a esse apoio social que ela recebia e do qual o carinho é a evidência maior.

Gestão Educacional: Como as brincadeiras infantis devem ser encaradas no processo de aprendizagem da criança?

Suzana: A brincadeira é o palco para a experimentação. É a oportunidade pura de se testar, na prática, as habilidades cognitivas, como se interage com as outras pessoas emocionalmente, que resultados as suas ações têm sobre os outros, como você interage com os outros. Brincadeira é oportunidade desde a mais simples experimentação sensório-motora até você ter as brincadeiras de enganar o outro, dentro de um jogo que é experimentação social e emocional. Brincadeiras como o jogo Detetive, em que é preciso solucionar um assassinato e você tem de intuir quem está com medo, enganando, tudo isso são oportunidades fabulosas de aprendizado. Você tem de aprender a identificar e a seguir regras, o que não é nada demais, é apenas a maneira de funcionarmos em sociedade. A brincadeira dá a oportunidade de aprender a conviver com essas regras, testar as suas capacidades e seus limites e testar essas regras de convívio social. São fundamentais o jogo e a brincadeira, não só para as crianças, mas para todo mundo.

Gestão Educacional: Em situações de conflito na escola, o professor, em vez de apenas dizer “não”, também deve ser positivo e sugerir às crianças outras opções para despertar seu interesse?

Suzana: Dizer “não” não resolve nada. A única função que o não cumpre é a de sinalizar o erro, mas só sinalizá-lo não resolve se você não fornecer uma alternativa de lidar com aquela situação, de resolver o problema em todos os sentidos: desde a maneira correta de se escrever uma letra até resolver conflitos com os colegas. A primeira coisa que o professor e a escola têm de reconhecer é que a função deles é dar alternativa. Não é simplesmente punir, dizer “não é assim que se faz”. É preciso mostrar como se faz. A criança não tem a menor obrigação de saber qual é a maneira correta de fazer algo. É o adulto, o professor e a escola que têm de fazer isso. Dar alternativa é fundamental, abrir esse leque de possibilidades melhores e mais saudáveis para os alunos, mas também e, sobretudo, dar o exemplo. É mostrar por meio de suas próprias ações como se faz. Isso tanto para a parte cognitiva, digamos racional, dos problemas do comportamento quanto para a parte emocional. É mostrar também como lidar com problemas dos mais variados. As crianças fazem o que elas veem os outros fazerem.


Revista Gestão Educacional

Entrevista publicada na edição de dezembro de 2013.

http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/reportagens/entrevistas/495-a-neurociencia-do-desenvolvimento-infantil-aplicada-a-educacao

quarta-feira, outubro 05, 2011

ao pai






Amava os finais de tarde no Rio. Era quando sua tosse atravessava o comprido corredor. Daí mamãe falava sem precisar: “seu pai.” Sempre que penso em saudade doída, lembro-me de você voltando para lá. Em São Paulo, meu choro e a doença da mamãe espremidos entre bloquinhos rabiscados.
Toda vez que penso na minha vida escolar, ouço nosso silêncio das 5h. Tempos de conselhos sem fim: “estude, leia, seja independente”. Ficaram.
A nossa veneração aos cinemas do centro. Salas fantásticas, imensas. O inesquecível Corcel Negro. Esforçava-me para ler a legenda muito rápida pra pouca idade. Solidário, de tempos em tempos, você perguntava: “quer que eu leia pra você?”. Grudada na tela, balançava rapidamente a cabeça negativamente. A nossa paixão por Blade Runner me rendeu um vinil.
Ah, e como poderia esquecer do E.T. A nossa inesquecível maior fila de todos os tempos. Entramos, mas o filme já havia começado. Enquanto procurávamos um lugar, policiais caçavam o extraterrestre. Não o encontram; mas Elliot, sim. Mergulhamos no subúrbio. No final, você inova: “vamos assistir de novo?"
Bob's na avenida Brasil. Um verdadeiro oásis. Sentada no balcão, virava quantos sucos de uva conseguisse. Ainda hoje consigo sentir o gosto da comida das inúmeras pensões que frequentamos no Rio e da comida enlatada que você teimava em comprar.
Já São Paulo tem gosto de Dom. No final dos anos 1970, a portinha lá na rua Aurora, quase esquina com a rua do Arouche, escondia garçonetes incríveis e os seus pratos dançantes. As mesinhas forradas com fórmica eram lindas, mas éramos da casa, pertencíamos ao balcão.




quinta-feira, dezembro 16, 2010

revista v!rus

mais um número da revista v!rus, do nomads.usp,sobre o tema DESENHANDO COEXISTÊNCIA.
http://www.nomads.usp.br/virus/virus04/

segunda-feira, novembro 29, 2010